![]() |
"Janaina, filha de Iemanjá, é oito ou oitenta
e os outros 71 quase nunca interessam. Ela é apenas mais uma entre tantas, mas ninguém no mundo é exatamente como ela."
Assine meu Feed
![]()
|
Não amo ninguém. É a primeira vez em muito tempo que eu não amo nenhum homem. Ninguém me arranca calafrios, ninguém tira o meu sono, ninguém me faz ficar ao lado do telefone esperando uma ligação. É estranho. Não estou acostumada com isso. Vivi sempre em montanha russa. Sempre com borboletas a minha volta, com estomago em nós, sempre com aquela sensação sufocante ou salvadora. Mas eu não amo ninguém, e isso me causa uma estranheza absurda. O não amar influi em várias coisas, ninguém em faz ficar horas na frente do espelho querendo parecer atraente, ninguém me faz querer usar aqueles sutiãs com rendas, babados e arames, e eu posso livremente usar meu sutiã de algodão velhinho, mas extremamente confortável. Não ando nem tendo que depilar as pernas com tanta regularidade. É claro que não tenho com quem dormir em noites frias, pra quem preparar alguma surpresa, não tem alguém que eu queira abraçar até sufocar, e que a falta chega a doer na alma. É muito estranho esse sentimento de pensar no “eu” e não no “nós”. O que eu quero fazer, o que eu quero neste momento, o que agrada somente a mim e mais ninguém. É uma sensação estranha. Uma libertação esquisita. Que não te da mal estar, mas também não te leva ao cume dos sentimentos. Que não te faz completa, mas também não te faz incompleta. Uma estranheza que te faz procurar, afinal o relógio não para. E a gente quer muitas coisas nessa vida, aquela coisa que dizem que temos que ter durante a nossa passagem por aqui. Mas ao mesmo tempo não perder muito tempo, muito esforço com isso. Que te da até um toque de egoísmo. É você, você, você e só você. E tudo isso é muito estranho pra mim... Não é que eu goste. Mas aqui no fundo, bem no fundo eu também não desgosto... Só me é incomodamente estranho... "Porque você não pode voltar atrás no que vê. Você pode se recusar a ver, o tempo que quiser: até o fim de sua maldita vida, você pode recusar, sem necessidade de rever seus mitos ou movimentar-se de seu lugarzinho confortável. Mas a partir do momento em que você vê, mesmo involuntariamente, você está perdido: as coisas não voltarão a ser mais as mesmas e você próprio já não será o mesmo." Caio Fernando Abreu |