
Eu quero dormir e acordar lá com os meninos da árvore. Jogar pó de pilimpimpim e voar. Voar pra bem longe daqui. Num lugar onde mais importante do que se time perdeu e ganhou, do que esse PANdemônio que se instalou no RJ e do que declarações que aqueles palhaços que mantemos em Brasília fazem, é que pessoas não passem fome, que gente (como a gente) não durma na rua, e que crianças não conheçam o som de tiroteios, que não saibam diferenciar uma pistola, de um revolver, e que não tenham que se esconder embaixo de camas para dormir.
Não quero mais abrir jornais. Não quer ser forçada a saber o que acontece no mundo. Que crianças continuam morrendo de fome na África, enquanto toneladas de comidas são jogadas fora todos os dias no resto do mundo. Não quero mais abrir a janela da minha casa e me deparar com gente procurando comida em sacos de lixo. Quero um mundo onde isso não exista. Onde fome, miséria, sofrimento, dor, violência, não sejam palavras conhecidas.
Vou para um mundo onde a gente leia clássicos infantis, Drumond, Pessoa, Vinicius, Clarice, Caio Fernando... A Wendy vai sentar e nos narrar contos, que nos farão sonhar com príncipes, princesas e finais felizes. Lá eu devo voltar a acreditar em finais felizes.
Estou cansada de tanto desastre, de tanta coisa cinza, de crianças com olhos úmidos pedindo socorro. E eu aqui me sentindo inerte, impotente, tentando ao menos deixar meu filho a salvo de tudo isso. Fazendo com que ele acredite em Papai Noel, Coelho da Páscoa, Fada do Dente... Porque não quero que ele perca a esperança. Porque não quero que ele deixe de acreditar que ainda tem jeito. Pois eu já deixei de acreditar. Porque por mais que ele saiba que precisa comer toda comida do prato, pois tem crianças que não tem o que comer. Que ele saiba que tem dar suas roupas que não servem mais, seus brinquedos que não brinca mais, ele ainda acha que a fantasia existe, e que policia prende ladrão. Só que eu ainda tenho que tentar responder porque o Papai Noel não consegue levar presentes no Natal para todas as crianças...
É isso, vou lá pro mundo do Peter Pan. Pois é lá que devem estar o Papai Noel, o Coelho da Páscoa, a Fada do Dente... E todos aqueles, que assim como eu perderam a esperança nessa gente. É lá que vocês podem me procurar, Terra do Nunca...